Neon e Creditas têm prejuízo no semestre; PicPay e C6 ampliam lucro
Expansão da carteira de crédito, receitas em alta e gestão de custos são destaques das fintechs sem capital aberto nos seis primeiros meses de 2025

Enquanto as instituições financeiras digitais brasileiras com ações em bolsa anotaram um crescimento de dois dígitos no lucro líquido consolidado na primeira metade de 2025, o retrato é um pouco diferente no caso dos principais bancos digitais e fintechs sem capital aberto. Creditas e Neon continuaram com prejuízo de janeiro a junho deste ano, ainda que a segunda tenha reduzido as perdas no período. C6 Bank e PicPay, por sua vez, mantiveram a trajetória de lucro, com expansão de receitas e rentabilidade elevada.
Última a publicar o desempenho, nesta terça-feira (30/09), a Neon registrou prejuízo líquido de R$ 35 milhões no primeiro semestre de 2025. O montante representa uma melhora de 87% em relação aos R$ 265,3 milhões de perdas em igual intervalo do ano passado. No relatório da administração que acompanha os números, a fintech fundada por Pedro Conrade disse crescer de forma acelerada, operando com margem positiva. Além disso, informou que, nos últimos meses, apurou os “primeiros resultados positivos não recorrentes”.

A Neon é uma Instituição de Pagamento autorizada pelo Banco Central do Brasil.
Foi fundada em 2016 com a missão de unir tecnologia e design para redesenhar e simplificar a experiência financeira das pessoas, além de ajudá-las a gerir melhor o próprio dinheiro.
A Neon afirmou ter concentrado seus esforços na originação de crédito por meio da Neon Financeira. Isso vem permitindo, de acordo com a instituição, diminuir o custo de captação e a dependência exclusiva de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs). A empresa voltou a dizer, no balanço, que as licenças de financeira e de Instituição de Pagamento (IP) também permitiram maior “independência operacional” em relação a processos e serviços bancários para os clientes. Assim, reduz “substancialmente” o custo operacional.
Ao longo do semestre, as receitas de intermediação financeira da Neon somaram R$ 1,7 bilhão, contra pouco mais de R$ 1 bilhão de janeiro a junho de 2024. Ou seja, uma alta de 64%. As despesas de intermediação financeira, por sua vez, totalizaram R$ 559 milhões, contra R$ 327,3 milhões, na mesma base de comparação.
A carteira de crédito (considerando cartão de crédito, consignado privado e crédito pessoal) ultrapassou R$ 7 bilhões na primeira metade de 2025, avanço de 25% em relação ao número do primeiro semestre de 2024. O maior portfólio segue sendo cartão de crédito (R$ 5,46 bilhões). O consignado privado, por sua vez, teve um forte crescimento de cerca de 26% entre um ano e outro.
No balanço, a Neon destacou ainda o reforço de capital com o fechamento da rodada Série E de R$ 720 milhões. O Finsiders Brasil havia antecipado, em setembro de 2024, a captação dos recursos, ou de parte deles. Na ocasião, a empresa não retornou à reportagem. Mas meses depois, em julho de 2025, anunciaria a conclusão daquela operação.
Creditas: impactos contábeis e de mercado

Ainda entre as fintechs com resultado negativo na última linha, a Creditas computou um prejuízo líquido de R$ 159 milhões de janeiro a junho de 2025, contra apenas R$ 14 milhões um ano antes. A maior parte das perdas neste ano até agora veio no segundo trimestre (R$ 104,7 milhões), conforme o resultado publicado no site de RI da fintech de crédito com garantia. Em termos operacionais, a empresa também registrou prejuízo – foram R$ 143 milhões no primeiro semestre deste ano, contra modestos R$ 12 milhões em igual período de 2024.
De acordo com a fintech fundada por Sergio Furio, os números do segundo trimestre de 2025 refletiram fatores contábeis e de mercado. Entre eles, a alta da taxa básica de juros (Selic), que elevou o custo de captação; as provisões para perdas esperadas antecipadas pelo IFRS, que concentram cerca de 70% do impacto nos primeiros nove meses das operações de crédito, ainda que os empréstimos tenham maturidade média de sete anos; e o efeito não recorrente de R$ 277 milhões em custos ligados à liquidação antecipada de estruturas de funding.
Apesar das perdas, a receita da Creditas avançou cerca de 16% entre um ano e outro, alcançando R$ 1,13 bilhão no encerramento do primeiro semestre de 2025. A carteira de crédito, por sua vez, atingiu R$ 6,46 bilhões ao final de junho – alta de 14% em 12 meses. A fintech destacou, contudo, que manteve fluxo de caixa neutro pelo sexto trimestre consecutivo. Isso permite financiar o crescimento com recursos próprios e sem necessidade de capital externo. Ainda assim, a fintech estuda uma nova rodada.
No texto que acompanha os resultados, a fintech afirmou que vive “uma nova fase de crescimento, sustentada pela alta recorrência de clientes, pelo bom desempenho da carteira de crédito e pelo claro ajuste entre produto e mercado em suas principais ofertas”. Segundo a Creditas, os investimentos em experiência do usuário e Inteligência Artificial (IA) já trazem resultados concretos. “Isso nos posiciona para uma meta de crescimento anual acima de 25% nos próximos anos, mantendo a rentabilidade da carteira”, destacou.
No PicPay, lucro três vezes maior

Em contraste com Creditas e Neon, dois dos maiores bancos digitais do País, C6 Bank e PicPay, voltaram a apresentar lucro na primeira metade de 2025. Dessa forma, continuaram na trajetória de resultados positivos já vista no ano anterior.
O PicPay, parte do grupo J&F, mais do que triplicou seu lucro líquido entre um ano e outro. Ao final de junho, registrou ganhos de R$ 208,4 milhões. O valor já representa mais de 80% de todo o lucro obtido no ano de 2024, que foi de R$ 251,8 milhões. O retorno sobre patrimônio (ROE) anualizado alcançou 20,3% ao final de junho.
De acordo com o CEO, Eduardo Chedid, os números mostram a capacidade de o banco digital crescer com rentabilidade e eficiência. “Ampliamos o resultado, o engajamento dos clientes e, ao mesmo tempo, trabalhamos na expansão de novas avenidas de crescimento para consolidar o PicPay como principal banco de milhões de brasileiros”, afirmou o executivo, em nota. A instituição soma 64 milhões de contas, sendo 41,3 milhões de usuários ativos.
Nos seis primeiros meses de 2025, a fintech viu sua receita líquida quase dobrar, atingindo R$ 4,5 bilhões. A carteira de crédito totalizou R$ 16,1 bilhões, triplicando de tamanho em um ano. Segundo o PicPay, um dos maiores responsáveis pela originação do segundo trimestre de 2025 foi o novo consignado privado, com mais de R$ 1,5 bilhão. A linha foi criada em março pelo Governo Federal sob o nome “Crédito do Trabalhador“.
C6: crescimento com rentabilidade alta

No C6, banco que tem o norte-americano JP Morgan Chase como acionista, o lucro líquido foi de pouco mais de R$ 1 bilhão entre janeiro e junho de 2025. A cifra representa um aumento de 8% em relação ao mesmo período do ano anterior. De acordo com a instituição, fundada por ex-sócios do BTG Pactual, o resultado pode ser explicado por uma combinação de fatores. Eles incluem aumento de receitas, crescimento da carteira de crédito (principalmente em consignado e veículos) e controle dos custos.
“Nesse semestre, nosso balanço deixa evidente duas características do nosso modelo de negócio: crescimento, de receitas e de lucro, por meio da expansão das nossas áreas de atuação, e a capacidade de gerar um ROE [retorno sobre patrimônio líquido] elevado e recorrente, resultado da alavancagem operacional que nossa estrutura proporciona”, disse Marcelo Kalim, em nota. O ROE anualizado ficou em 43%, informou o C6.
A receita líquida do banco atingiu R$ 4,2 bilhões no primeiro semestre deste ano, contra R$ 4,1 bilhões em igual intervalo de 2024. A carteira de crédito expandida fechou junho em R$ 72,4 bilhões, o que significa uma expansão de 49% ante o mesmo período do ano passado. O crescimento foi sustentado, entre outras frentes, pelo financiamento de veículos e pela concessão de crédito consignado. O C6 tem mais de 37 milhões de clientes.
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