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O Titanomaquia do Século XXI: China e EUA em Rota de Colisão com Tarifas de 100% e a Guerra Fria das Terras Raras

O Titanomaquia do Século XXI: China e EUA em Rota de Colisão com Tarifas de 100% e a Guerra Fria das Terras Raras

O Titanomaquia do Século XXI: China e EUA em Rota de Colisão com Tarifas de 100% e a Guerra Fria das Terras Raras

SÃO PAULO, [12/10/2025] – O cenário econômico global amanheceu neste domingo, 12, sob a sombra de uma escalada sem precedentes na já tensa relação comercial entre as duas maiores economias do mundo. A China, em um tom inequivocamente firme, sinalizou que não recuará diante da ameaça do presidente Donald Trump de impor tarifas de 100% sobre suas importações, instando os Estados Unidos a optarem pelo diálogo em vez das intimidações.

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Donald Trump de impor tarifas de 100% A china

A “guerra comercial”, que por um breve período pareceu dar lugar a uma frágil trégua, ameaça agora mergulhar em um novo e perigoso capítulo, onde as armas são taxas alfandegárias e o pivô da discórdia são as cobiçadas terras raras.

“A posição da China é consistente”, declarou o Ministério do Comércio chinês em um comunicado publicado online. “Não queremos uma guerra tarifária, mas não temos medo de uma.” Esta foi a primeira resposta oficial de Pequim à mais recente investida de Trump: a ameaça de elevar o imposto sobre importações da China para 100% até 1º de novembro. A provocação americana surge como retaliação às novas restrições chinesas à exportação de terras raras, minerais estratégicos e vitais para uma gama estonteante de produtos, desde smartphones e veículos elétricos até sofisticados sistemas de defesa militares.

Este novo capítulo de “olho por olho, dente por dente” não apenas coloca em xeque um possível encontro entre Trump e o líder chinês Xi Jinping, mas também ameaça sepultar de vez a trégua precária que havia sido estabelecida na guerra comercial, onde tarifas de ambos os lados já haviam ultrapassado brevemente a marca dos 100% em abril. O mundo assiste com apreensão a essa nova titanomaquia, consciente de que as reverberações de uma escalada podem ser sentidas em todas as cadeias de suprimentos e mercados financeiros globais.

A Estratégia de Trump e a Resiliência Chinesa

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Trump e o líder chinês Xi Jinping

Desde que assumiu a presidência em janeiro, Donald Trump tem utilizado as tarifas como sua principal ferramenta de política externa e comercial, buscando obter concessões de diversos parceiros comerciais dos EUA. A China, no entanto, tem se mostrado um dos poucos países que não apenas resistiu a essa pressão, mas tem respondido com uma determinação que reflete sua crescente influência econômica e geopolítica.

“Recorrer frequentemente à ameaça de tarifas altas não é a maneira correta de se relacionar com a China”, afirmou o Ministério do Comércio em sua publicação, apresentada como uma série de respostas de um porta-voz não identificado a questões de veículos de comunicação. A declaração chinesa é um pedido explícito para que as preocupações sejam abordadas por meio do diálogo, mas com uma ressalva clara: “Se os EUA insistirem obstinadamente em sua prática, a China certamente tomará medidas correspondentes para salvaguardar seus direitos e interesses legítimos.”

Além da ameaça de tarifas de 100%, Trump também acenou com a possibilidade de impor controles de exportação sobre o que ele genericamente chamou de “software crítico”, sem fornecer detalhes sobre o que isso implicaria. Essa ambiguidade, no entanto, é parte da tática de pressão, mantendo Pequim na defensiva e incerta sobre os próximos movimentos de Washington.

Ambos os lados se acusam mutuamente de violar o espírito da trégua ao impor novas restrições ao comércio. Trump, em uma de suas publicações nas redes sociais, declarou que a China está “se tornando muito hostil” e que está “mantendo o mundo cativo” ao restringir o acesso a metais de terras raras e ímãs. A réplica chinesa não tardou: a publicação do Ministério do Comércio listou uma série de novas restrições americanas nas últimas semanas, incluindo a expansão do número de empresas chinesas sujeitas aos controles de exportação dos EUA.

Terras Raras: O Calcanhar de Aquiles Tecnológico Global

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guerra comercial”

O cerne da mais recente escalada é a questão das terras raras. Esses 17 elementos químicos da tabela periódica, com nomes como neodímio, disprósio e európio, são a espinha dorsal de quase toda a tecnologia moderna. Estão presentes em turbinas eólicas, veículos elétricos, lasers, mísseis guiados, sistemas de radar, equipamentos de ressonância magnética, bem como em todos os eletrônicos de consumo que utilizamos diariamente – de smartphones e laptops a tablets e televisores. A capacidade de produzir esses minerais e, crucialmente, de processá-los, é uma vantagem estratégica imensa.

E aqui reside o ponto de maior vulnerabilidade para o Ocidente: a China é o ator dominante neste mercado. O país é responsável por quase 70% da mineração mundial de terras raras e controla cerca de 90% do seu processamento global. Essa dependência confere a Pequim uma alavanca de poder sem igual em qualquer disputa comercial ou geopolítica que envolva tecnologia avançada.

As novas regulamentações chinesas, que exigem que empresas estrangeiras obtenham aprovação do governo chinês para exportar itens que contenham terras raras provenientes da China (independentemente de onde os produtos sejam fabricados), são um golpe estratégico.

Elas não apenas afetam diretamente fabricantes americanos, mas também atingem em cheio empresas europeias e de outros países que dependem desses minerais para suas cadeias de produção.

O Ministério do Comércio chinês, ao comentar sobre as terras raras, afirmou que licenças de exportação seriam concedidas para “usos civis legítimos”, mas fez questão de observar que os minerais “também têm aplicações militares”. Essa distinção sutil, mas carregada de significado, é um lembrete velado da natureza dual desses recursos e da profunda implicação para a segurança nacional de qualquer país. Ao restringir o acesso, a China envia uma mensagem clara sobre sua capacidade de impactar indústrias críticas e cadeias de suprimentos globais.

Outras Frentes de Batalha: Taxas Portuárias e Além

A disputa não se limita apenas às terras raras e às tarifas de 100%. O comunicado do Ministério do Comércio chinês também apontou para outras frentes de atrito, como a implementação de novas taxas portuárias pelos EUA para navios chineses, que entrariam em vigor na terça-feira. Em um ato de retaliação imediata, a China anunciou na sexta-feira que imporia taxas portuárias equivalentes aos navios americanos.

Esse “vaivém” constante de restrições e retaliações ilustra a profundidade do desentendimento e a falta de confiança entre as duas potências. Cada ação gera uma reação, criando um ciclo vicioso que afasta a possibilidade de uma resolução negociada e aprofunda as fissuras no sistema de comércio global.

As ameaças de Trump de controles de exportação sobre “software crítico” também adicionam uma nova camada de incerteza. Em um mundo onde a tecnologia digital permeia todas as esferas da vida e da economia, a restrição de software pode ter implicações tão ou mais devastadoras do que as tarifas sobre bens físicos. Isso levanta questões sobre o acesso a sistemas operacionais, aplicativos, ferramentas de desenvolvimento e outras plataformas digitais essenciais para o funcionamento de indústrias inteiras.

O Impacto Global: Economia, Tecnologia e Geopolítica

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guerra comercial entre EUA e China

A escalada da guerra comercial entre EUA e China, com ameaças de tarifas de 100% e a instrumentalização das terras raras, tem profundas implicações em escala global:

1. Desestabilização da Economia Global: A imposição de tarifas massivas sobre importações chinesas pelos EUA e vice-versa pode levar a um aumento significativo nos preços para os consumidores, disrupção das cadeias de suprimentos globais e uma desaceleração do crescimento econômico em escala mundial. Empresas de diversos setores, que dependem da China como fornecedor ou mercado, seriam duramente atingidas.

2. Guerra Tecnológica Acelerada: A restrição de acesso a terras raras e a ameaça de controle sobre software crítico aceleram a “guerra tecnológica” entre as potências. Isso pode levar a um esforço global de diversificação das fontes de terras raras (embora seja um processo caro e demorado) e a uma corrida por autonomia tecnológica, com países e blocos econômicos buscando desenvolver suas próprias capacidades em áreas estratégicas para reduzir a dependência.

3. Fragmentação do Comércio Internacional: A escalada protecionista e as barreiras não tarifárias podem levar a uma fragmentação do sistema de comércio internacional, com a formação de blocos econômicos mais fechados e a erosão das instituições multilaterais de comércio, como a Organização Mundial do Comércio (OMC).

4. Inflação e Pressão sobre Consumidores: O aumento das tarifas de importação inevitavelmente se traduz em preços mais altos para os produtos, uma vez que as empresas repassam esses custos aos consumidores. Isso pode impactar o poder de compra e contribuir para pressões inflacionárias globais.

5. Impacto nas Indústrias Estratégicas: Setores como o automotivo (especialmente veículos elétricos), energias renováveis (turbinas eólicas), eletrônicos de consumo e, crucialmente, o setor de defesa, que dependem intensamente das terras raras, enfrentarão desafios significativos no fornecimento e nos custos.

6. Riscos Geopolíticos: A intensificação do confronto econômico aumenta os riscos geopolíticos, podendo exacerbar tensões em outras áreas, como o Mar do Sul da China, Taiwan ou questões de direitos humanos.

A Necessidade de Diálogo e Cooperação

Em meio a essa atmosfera de confronto, a posição chinesa de “não querer uma guerra tarifária, mas não ter medo de uma”, enquanto apela para o diálogo, ecoa como um paradoxo estratégico. É uma demonstração de força, mas também um convite (ainda que relutante) à mesa de negociações. A experiência histórica mostra que guerras comerciais prolongadas raramente produzem vencedores claros, e seus custos são geralmente compartilhados por todos os envolvidos, incluindo os consumidores e as empresas.

A comunidade internacional, incluindo países da Europa, América Latina e Ásia, observa essa disputa com crescente preocupação. A estabilidade do comércio global e o acesso a tecnologias essenciais estão em jogo. A busca por soluções negociadas, que abordem as preocupações legítimas de ambos os lados sem recorrer a medidas extremas, é a única via sustentável a longo prazo.

No entanto, a retórica agressiva e as ações unilaterais de Washington, combinadas com a crescente assertividade de Pequim em proteger seus interesses estratégicos, sugerem que um caminho rápido para a desescalada é improvável. O mundo terá que se adaptar a um cenário de maior volatilidade e incerteza, onde a geopolítica dos dados e dos minerais críticos definirá o tabuleiro do comércio internacional por muitos anos vindouros. A “guerra fria das terras raras” e as tarifas de 100% são apenas o começo de um confronto que promete redefinir a ordem econômica global.

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Ango Silva, nascido no brasil em 1978, é um jornalista com uma carreira consolidada, marcada pela profundidade na cobertura de temas políticos e econômicos. Sua trajetória profissional teve início em 1999 na Rádio JB FM, onde atuou até 2010. Ao longo de sua carreira, Ango Silva destacou-se como correspondente internacional, cobrindo eventos de grande relevância,Sua dedicação e excelência foram reconhecidas com o Prêmio Maboque de Jornalismo, concedido duas vezes, e uma menção honrosa no Prêmio Kianda, na categoria de jornalismo econômico. Com uma formação que inclui um curso intensivo de jornalismo na Solidarity School of the Union of German Journalists em Berlim (1994), um estágio profissional na Deutch Welle em Colônia (1990) e cursos de técnicas jornalísticas com o BBC Training Center em Londres,

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